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Uma visita mais que especial

Por: Vittória Cataldo

Geralmente eu coloco em meus textos “personagens e situações fictícias”. Isso significa que eu crio pessoas e situações para poder escrever de maneira diferente e criativa sobre cada assunto que permeia a Residencial Bem Viver. Vocês se lembram de um texto que fiz para o blog intitulado “Na verdade, as últimas impressões são as que ficam”?

 

Nele eu criei dois personagens: um jornalista e um morador da Residencial Bem Viver para escrever como era para o morador viver lá. Para esse mês de junho eu fiz diferente. Eu mesma fui lá e fiz o papel desse jornalista que inventei.

 

Nada como nós mesmo irmos a campo para escrever sobre algo. Cheguei na Residencial Bem Viver debaixo de um céu azul lindo de inverno com a minha colega de trabalho, na intenção e prontas para entrevistar algum idoso.

 

Sempre fui muito sentimental, e precisa sim de um apoio naquele momento para conseguir seguir firme e voltar para o meu trabalho no final do dia, porque assim que entrei eu quis ficar ali. Com todas aquelas senhoras bonitinhas e bem cuidadas.

 

Eu entrei querendo falar com pelo menos uma senhora e saí de lá com seis entrevistas. Seis mulheres com histórias de vida incríveis e momentos inesquecíveis enfileiradas esperando apenas para conversar comigo. Para compartilhar tudo comigo.

 

Se eu esperava ver tristeza estampadas em olhos marejados? Não vou mentir. Esperava sim. Nunca tinha ido em uma casa de repouso, e depois de entrar na Residencial Bem Viver e ter aquele momentos com todas elas, eu saí outra pessoa. E eu estava errada. Não vi tristeza nenhuma, mas sim alegria. Muita alegria.

 

Trago hoje a minha primeira entrevistada: Ruth Aparecida Santos Moura. E sério gente, eu nunca ri tanto na minha vida como eu ri nesse dia conversando com essa pessoa maravilhosa e bem-humorada que é a Ruth, que já está na Residencial Bem Viver há dois anos.

 

 

— Me diz qual foi o momento mais legal que você teve aqui Ruth. — Essa foi uma das minhas primeiras “perguntas”.

— Ah foi quando eu quebrei o fêmur. — Ela me respondeu depois de pensar um pouco.

 

Sim. Eu tive essa mesma reação que você teve agora lendo. Não soube o que falar por um momento e logo em seguida eu comecei com a minha indignação bem-humorada: “como assim isso foi legal Ruth?” “Onde isso é legal?”

Ela riu antes de me responder

 

— Ah é porque foi quando todo mundo me carregou no colo!

E então eu ri com ela.

 

Ruth não precisava esperar uma pergunta para dar a sua resposta. Ela gostava de conversar e me contou que não sentia cheiro e nem gosto de nada. “Pode peidar perto de mim que eu não vou nem sentir”, ela disse e mais uma vez risos de duas gerações diferentes preencheram aquele ambiente.

 

— A cabeça, a língua e o bom humor estão bons, o resto pode jogar fora. — Ela disse se sentindo a vontade de uma garota estranha com um gravador nas mãos. Pergunto logo depois sobre a rotina dela no Residencial Bem Viver. E ela me responde com o maior prazer, sempre me fazendo rir.

 

— Nossa senhora, me levanto de manhã com as mulheres se jogando em cima da mim na cama, “Ruth tá na hora o café tá na mesa”, mas de que jeito eu vou sair da cama com todo mundo em cima de mim? — Risos preenchem o ambiente de novo. — Minha dentadura tá caindo e eu preciso colar senão eu vou engolir ela. — Ela comenta se perdendo um pouco o fio da meada. — Aí me levanto, vou-me para o banheiro, lavo o rosto, escovo os dois dentes, pego a de cima, boto o corega que nem tá colando mais, colei pra almoçar mas tá soltando, aí venho e tomo café da manhã, boto o guardanapo para todas as veinhas, pra cada uma ter o seu, depois me sento, agradeço a Deus o café que eu vou tomar, e tomo o meu café. Aí depois a sobremesa do café, o “pito”. — Ela gesticula como se tivesse fumando um cigarro.

 

— Ah não acredito que o pito é a sua sobremesa! — Eu comento rindo um pouco e percebendo como, mesmo fumando, aquela senhora está viva e cheia de energia. Mesmo sabendo da mortalidade.

 

— Aí eu venho aqui fora e tem um cinzeiro aqui que a dona da pensão me deu, é um “bardinho” desse tamanho, cheio de areia, pra botar a bituca dentro. Aí eu pito, dois pito, vou-me lá pra dentro, pego o meu tricô e começo a tricotar. — Ela continua contando mais um pouco sobre a sua rotina e o que mais gosta de fazer, além de fumar, o tricô dela.

 

Algumas vezes durante a entrevista parávamos para rir, ou mudar de assunto para depois voltar rapidamente para o assunto ao qual estávamos falando. Foi em um desses momentos, não sei dizer qual exatamente, que eu percebi que aquilo não era mais uma entrevista, e sim uma conversa descontraída. E todas estavam envolvidos.

 

— Aí o pior de tudo menina, é a hora do sufoco. — Ela fala colocando a mão sobre o rosto. Nessa hora uma das suas colegas sopram baixinho “a hora do banho”.

— Ah olha aí, sua amiga já me disse! — Eu falo dando risada.

— O bocuda vou comer a sua língua! — Ruth fala para a amiga. Todas dando risada.

— Ah me desculpa. Me desculpa. — A amiga dela diz falando que vai ficar quietinha.

— Por que o banho é a pior hora Ruth? — Pergunto curiosa.

— Não gosto do frio pra levantar da cama e pra tomar banho, e agora que aqui tem que tomar banho todos os dias, todos os dias eu tô uma escorregada e quero me enfiar no baú da cama, mas sempre me acham e falam “Ruth falta você pra tomar banho”, ai eu falo “áh espera eu terminar essa carreia aqui, pra não perder a agulha”, aí eu termino e já logo começo outra.

 

— Mas no fim me catam e eu vou tomar banho, ai eu vou pelo corredor “aí tô desmaiando”, ai elas me pegam e falam “você não vai desmaiar agora, depois do banho você desmaia”, bom tenho que tomar banho então vamos tomar banho.

Mais risadas. Ela tem um jeito incrível e me fazer rir contando suas experiências.

 

— E lá vai eu pra tomar banho, aí ficam “anda logo não pode demorar pra não gastar água”, aí eu falo “tô pagando e pagando bem, você quer que eu entre por um lado do chuveiro, saiu pelo lado de lá e me enxugo? E o bolor? — Ela diz e gesticula nas partes de baixo. — Faz 19 anos que não usa, tudo embolorado, e pra tirar esse bolor na hora do banho menina, as vezes eu tomo banho com aquela escova de esfregar, aí eu passo lá. Aí… eu já tomei banho né? Já.

Risada.

Mas muita risada.

Nesse ponto da conversa eu já havia perdido a noção do tempo.

 

— Aí é a hora do almoço. Aí eu sento pra almoçar, e fico “obrigada meu Deus pela comida que eu vou comer agora, de coração eu agradeço tudo o que o Senhor me dá para comer”, aí elas começam a dar risada “a Ruth tá parecendo a minha mãe, caduca, a minha mãe não larga do terço. — Mais risos. — Fique sabendo que desde quando eu nasci, quase, que eu agradeço a comida que eu como, e que muitos coitados por aí não tem um grãozinho de arroz para comer. Aí não sinto o gosto. Quem que senta do meu lado? — Ela procura entre as amigas — Não veio? Ah não tá aqui ainda. Então eu esperava ela dá duas ou três garfadas, batia na perna dela “tá bom isso aí?” ai ela me falava “tá bom sim, pode comer” aí eu comia, se ela fazia assim — Ela faz cara de quem comeu e não gostou — Às vezes meio sem sal, aí eu comia metade e deixava metade. Acaba de comer e já perguntava da sobremesa, nem acabou de comer e já tá querendo a sobremesa. Aí um dia vem gelatina, vem salada de fruta, um pedacinho de mamão desse tamanho, uma banana cortada em 10 pedaços, aí eu como um pouco e perguntam “você não comeu?” aí eu respondia “não eu tô satisfeita, já comi muito no almoço”, ai depois de tarde, tem o lanche da tarde… suco, então hoje nó vamos comer pão com água, que é água com pózinho né? que nem Tang, então de manhã a gente come pão com margarina, e de tarde é margarina com pão, se bobear no lanche da noite a gente come isso de novo.

 

Conversar com a Ruth era como estar conversando com a amigas em uma barzinho depois do trabalho: uma conversa divertida e cheia de sinceridades. Não parecia que tinha anos nos separando. Ali, erámos duas pessoas com a mesma vontade: se conhecer e conversar um pouco.

 

No meio da conversa ela conta que o filho dela a colocou lá, e que ela pede para Deus sempre deixar ela mais um pouquinho. Pergunto então das amizades que ela fez ali.

 

— Ah menina, você precisa ver na hora da novela… — ela começa a dizer. —Tem duas aqui que ficam lá sentadas na poltrona. — Ruth imita uma pessoa dormindo e roncando. Todas damos risada. — Ficam assim a tarde inteira, deu 6 horas de tarde dá um click na língua dessas mulheres menina. Eu dou um grito que lá da rua se escuta, aí todo mundo fica “que isso Ruth?” aí eu respondo “essas mulheres não param de falar, bota uma fita crepe na bota delas”.

E mais risadas.

Depois de me contar tudo isso, ela pediu licença e foi “colar a dentadura para não engolir” e eu parti para a próxima entrevista.

Aguardem.

17/06/2019

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